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04/02/2016

A carne do futuro

Várias empresas jovens de tecnologia estão numa verdadeira corrida para serem as primeiras a colocar nos pratos dos consumidores hambúrgueres e salsichas produzidos em laboratório, mas tão saborosos quanto os tradicionais, feitos com carne bovina e suína.

A Memphis Meats Inc. acredita que, dentro de quatro anos, será a primeira a vender carne desenvolvida a partir de células animais em tanques de aço. “Startups” rivais, como a Mosa Meat e a Modern Meadow Inc., também têm como objetivo colocar essa “carne cultivada” em laboratório no mercado em alguns anos.

A competição ressalta como esses esforços se aceleraram desde que, em 2013, foi feito o teste de sabor de um hambúrguer desenvolvido em laboratório um projeto de vários anos que custou US$ 330 mil e foi financiado por Sergey Brin, um dos fundadores do Google. O hambúrguer resultante do projeto liderado pelo fisiologista Mark Post obteve avaliações conflitantes, mas incentivou Post, que ajudou a fundar a holandesa Mosa Meat, a continuar o experimento.

O objetivo ambicioso das startups é revolucionar a indústria moderna da criação animal, que atualmente consome um terço dos grãos produzidos no mundo e ocupa cerca de 25% das terras do globo para pastagem, segundo dados da Organização das Nações Unidas. As empresas afirmam que produzir carne a partir de células e biorreatores ferramentas similares aos fermentadores usados para fabricar cerveja consome uma fração dos nutrientes, cria muito menos lixo e evita a necessidade de antibióticos e outros aditivos usados na produção de carne.

“A indústria da carne sabe que seus produtos não são sustentáveis”, diz o diretor-presidente da Memphis Meats, Uma Valeti, cardiologista e professor de medicina da Universidade de Minnesota. “Nós acreditamos que, em 20 anos, a maioria da carne vendida em supermercados será cultivada [em laboratório].”

Os benefícios potenciais podem ser enormes só os americanos, por exemplo, gastaram US$ 186 bilhões em carne de bovinos, suínos e aves em 2014 e, neste mês, a Memphis Meats planeja anunciar sua estratégia e a captação de cerca de US$ 2 milhões em financiamento de firmas de capital de risco como a SOSV LLC e a New Crop Capital.

Alguns na indústria de carne duvidam que os consumidores, muitos dos quais hoje exigem comida “natural” ou orgânica feita sem aditivos ou ingredientes geneticamente modificados, adotarão a carne desenvolvida a partir de células animais.

Representantes de grandes fornecedores de carne dos Estados Unidos, como Tyson Foods Inc., Hormel Foods Corp. e Perdue Farms Inc., não comentaram, afirmando que a tecnologia ainda é muito nova. Mas o entusiasmo com a nova tecnologia como uma forma de satisfazer o apetite dos consumidores por carne é elevado entre firmas de capital de risco e investidores do Vale do Silício. Bill Gates, da Microsoft Corp., e dois dos fundadores do Twitter, Biz Stone e Evan Williams, investiram nas startups de proteínas à base de vegetais Beyond Meat e Impossible Foods Inc.

A Memphis Meat desenvolve a carne isolando células de vacas e porcos que têm a capacidade de se renovar, e fornecendo a elas oxigênio e nutrientes. Essas células se desenvolvem em tanques biorreatores e se convertem em músculo que pode ser “colhido” depois de 9 a 21 dias, diz Valeti.

Embora as células possam ser retiradas de animais sem abatê-los, a Memphis Meat e outras empresas vêm dependendo de soro sanguíneo de fetos de bovinos para ajudar a iniciar o processo. Valeti diz que a Memphis Meats terá a capacidade de substituir o soro com uma alternativa vegetal no curto prazo, e Post afirma que espera ser capaz de eliminar seu uso. Sem o soro, não há necessidade do uso de antibióticos, segundo pesquisadores.

As startups de carne informam que o principal desafio será aumentar a produção e manter os custos baixos para que a carne cultivada possa competir em preços e sabor com a carne animal. Atualmente, o custo de produção de meio quilo de carne moída cultivada é de US$ 18 mil, em comparação com os US$ 4 cobrados pelos supermercados americanos pela mesma quantidade de carne animal, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA. Pelo The Wall Street Journal 

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