NOTÍCIAS

22/04/2015

Champanhe resistiu 170 anos debaixo de água

Nas histórias para crianças, muitas vezes há tesouros perdidos no fundo do mar. Neste caso, a realidade imitou a ficção, quando um grupo de mergulhadores encontrou 168 garrafas de champanhe nas profundezas do mar Báltico, nos destroços de um barco que afundou em 1840, há 170 anos.

A descoberta foi feita em 2010, mas só agora se conhecem os resultados das análises sensoriais e químicas levadas a cabo por uma equipe liderada por Philippe Jeandet, professor de bioquímica alimentar na Universidade de Reims, capital da região francesa de Champagne, a amostras do conteúdo das garrafas encontradas no fundo do mar Báltico.

Na escuridão e baixas temperaturas que se fazem sentir a 150 metros de profundidade, a famosa bebida, usufruiu das condições ideais para envelhecer e chegar de meados do século XIX ao século XXI com grande qualidade.

Pelo menos, é essa a opinião de Philippe Jeandet, que embora só tenha provado duas gotas do precioso néctar, o classifica como "muito jovem, com bastante frescura e uma nota floral ou frutada". Disse ainda terem ficado impressionados "por constatar que o champanhe que testámos, estava perfeitamente conservado, seja do ponto de vista da composição química, seja do aroma".

Foi quase um trabalho de detetive para a equipe de investigadores. Como os rótulos desapareceram por ação da água, foram as rolhas que forneceram a informação sobre as marcas encontradas. Uma delas, a Veuve Clicquot Ponsardin, ainda existe, o que permitiu uma comparação de resultados.

A conclusão surpreendeu o próprio Jeandet, uma vez que não há assim tantas diferenças entre a forma como foram produzidas as garrafas encontradas no Báltico e o champanhe que é consumido atualmente na França, ou seja, já nessa época se devia "controlar a qualidade do vinho muito bem", indica.

As análises químicas revelaram que o champanhe atual tem um teor alcoólico mais elevado, mas os níveis de açúcar são inferiores. A explicação pode estar no clima que era mais frio em meados do século XIX e na adição de açúcar no final do processo, habitual nessa época. "O vinho do Báltico que analisámos contém 140 gramas de açúcar por litro, em comparação com os cerca de 6 a 8 gramas, que se usam hoje", contou Jeandet.

Os investigadores encontraram também vestígios de metais e madeira no produto antigo, o que se explica pelo modo de produção e pelos recipientes usados. Usava-se o ferro nos recipientes da uva e o vinho envelhecia em carvalho. Por outro lado, as vinhas eram tratadas com sulfato de cobre, enquanto hoje se usam fungicidas orgânicos.

Pela localização dos destroços do barco, ao largo da costa da Finlândia, os investigadores acreditam que se destinasse à Rússia czarista. O que se sabe é que, depois de tantos anos juntas, as garrafas acabaram por ter destinos diferentes: algumas foram leiloadas e vendidas por mais de 100 mil euros, cada uma, outras estão em museus e instituições históricas.

Afinal, não é uma bebida qualquer que é capaz de surpreender um perito em Champagne, como Jeandet, que descreveu a prova dizendo que "Foi incrível. Nunca tinha provado um vinho assim na vida. O aroma ficou na minha boca por três ou quatro horas depois de prová-lo".

PUBLICIDADE